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Como passar pela dor da perda

Texto de Gonzalo Brito

Tradução: Erika Leonardo de Souza (texto original aqui)


Ilustração do livro Pode chorar, coração, mas fique inteiro, de Glenn Ringtved, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letrinhas.


A dor da perda é uma energia que não pode ser controlada ou prevista. Ela vem e vai ao seu próprio ritmo. A dor não obedece a seus planos ou seus desejos. A dor da perda vai fazer contigo o que ela deseja, quando desejar. Nesse sentido, a dor da perda tem muito em comum com o amor.


Nesse final de semana, estive na XIV Jornada da Morte e o Morrer, em Elche. Além de compartilhar algumas ideias sobre a compaixão nesse contexto, tive o privilégio de escutar e aprender com colegas muito sábios, como Enric Benito, Mar Cortina, Sara Pons e Vicente Arráez, que falaram sobre a morte, sobre como acompanhar pessoas no processo de morrer, sobre o temor da perda e, sobretudo, pude escutar muitas nuances de um tema implícito e onipresente, o amor. Ao voltei a Madri, fui assistir “Bohemian Rhapsody” (obrigada Cuca pelo convite), sem muitas expectativas na verdade, no entanto sai da sala bastante emocionado e conectado com a beleza e intensidade desta preciosa (e frágil) vida humana de espaço e oportunidade. Também sai com um grande espanto pela nossa capacidade de amar, uma capacidade proporcional a nossa capacidade de sentir a dor da perda. A dor da perda parece ser o preço que nós humanos pagamos pelo privilégio de amar.


Provavelmente, essas experiências dos últimos dias me levaram a revisitar um artigo da preciosa revista Brain Pickings sobre o tema da dor da perda. Nesse artigo, Maria Popova, com sua lucidez habitual, compartilha algumas reflexões da escritora Elizabeth Gilbert sobre a experiência de ter perdido o amor de sua vida, Raya Elias, devido a um câncer.


Há algo profunda e extremamente apaziguador na confiança de que a dor da perda e o faz a nosso corpo, mente e coração tem seu próprio ritmo e sabedoria. Provavelmente, frente a essa dor, o mais sábio que possamos fazer é entregarmos às turbulentas águas que nos atravessam quando perdemos algo ou alguém, confiando que o processo tem uma inteligência inerente que transcende nossa compreensão intelectual. Intuo também que muitos problemas que surgem em torno do luto tem a ver com a intenção consciente ou inconsciente de suprimir, reprimir, controlar ou evitar este processo ou de tratar de encaixá-lo racionalmente erm marcos psicológicos ou prescrições técnicas para enfrentá-lo. Afinal de contas, o fundamental é que não é possível de ser manualizado. No entanto, podemos aprender a sutil arte de nos acompanhar, de estarmos presentes com o coração aberto para navegar nesses processos sensíveis e frequentemente catárticos e transformadores da nossa vida humana.


Elizabeth Gilbert fala sobre o amor, a perda e sobre como passar pelo luto ao mesmo tempo que o luto passa por você

Por María Popova. Tradução para o espanhol de Gonzalo Brito. (texto original em inglês aqui).


“Todas as suas tristezas serão desperdiçadas se ainda não aprendeu como estar triste”, escreveu Seneca a sua mãe em sua extraordinária carta sobre a resiliência frente a perda. Não é necessário ser um materialista árido para se curvar ao reconhecimento de que nenhum coração passa pela vida sem ser impactado pela perda... todo amor pressupõe uma perda, seja pela morte ou seja pelo término de uma relação. Se sentimentos ou átomos são perdidos, a dor chega, inevitável e imprevisível em uma miríade de maneiras. Joan Didion observou este desconcertante fato em sua clássica recordação sobre uma perda: “A dor da perda, quando vem, não é nada parecido com o que esperamos”. E quando vem, desarma o tecido de nosso ser. Quando se perde o amor, perdemos aquela parte de nós mesmos que fez esse amor, uma parte que, dependendo da magnitude do amor, pode se aproximar da totalidade do que somos. Perdemos o que a artista Anne Truitt chamou poeticamente “a amorosa e completa confiança que só emerge de um incontável número de íntimas confidencias oferecidas e examinadas mutuamente... tecidas a quatro mãos, às vezes tremendo, às vezes enfrentando desafios, acima e abaixo, criando um padrão que pode surpreender as duas pessoas ".


Mas também ganhamos algo. Das brasas ardentes da perda emergem as cinzas da humildade, fiel a raiz latina da palavra húmus. Somos feitos "da terra", nos curvamos, nos tornamos crosta terrestre e cada respiração parece beber do magma do centro da terra que é o nosso ser. É somente quando somos capazes de nos entregar completamente que podemos começar a nos reapropriar, começar a emergir e a viver novamente.


Como passar por esta experiência da qual sobrevivemos a duras penas é o tema que a autora Elisabeth Gilbert examina com uma claridade mental e ternura de coração pouco comum em sua conversa com o curador de palestras TED Chris Anderson no episódio inaugural do podcast Ted Interviews.


Gilbert reflete sobre a morte de sua parceira, Rayya Elias, com quem manteve uma amizade profunda e cujo diagnóstico de câncer terminal, nas palavras de Gilbert, abriu uma escotilha para a consciência de que Rayya era o amor de sua vida:


A dor da perda ... é algo que acontece com você, é maior que você. Há uma humildade na qual é preciso entrar, na qual você se entrega para se deixar levar pela paisagem do luto. E tem sua própria temporalidade, tem seu próprio itinerário pessoal para você, tem seu próprio poder sobre você e virá quando vier. E quando chega, é uma inclinação, uma escavação. Ele vem quando ele quer e esculpe você, ele vem no meio da noite, ele vem ao meio-dia, ele aparece no meio de uma reunião, ele vem no meio de uma refeição. Chega, é uma chegada tremendamente poderosa que não pode ser resistida sem gerar mais sofrimento .... A posição que você toma é aterrissar com os joelhos no chão com absoluta humildade e deixar que ela o sacuda até que acabe. Eventualmente acaba. E quando acabar, vai embora. Mas endurecer-se, resistir, lutar contra si mesmo é se machucar.


Olhando para a conexão biológica íntima entre corpo e mente, a sementeira de sentimentos, Gilbert acrescenta:


Existe esse tremendo desafio psicológico e espiritual de relaxar em seu incrível poder até que tenha passado por você. A dor da perda é uma experiência de todo o corpo. Toma seu corpo completamente, não é uma doença da mente. É algo que afeta você fisicamente ... Eu sinto que tem uma tremenda conexão com o amor: em primeiro lugar, como dizem, é o preço pago pelo amor. Mas, em segundo lugar, nos momentos da minha vida em que me apaixonei, tive tão pouco poder diante da experiência como quando enfrento a dor de uma perda. Há algumas coisas que acontecem a você como um ser humano que você não pode controlar ou dirigir, que vão acontecer em tempos realmente inconvenientes, e nas quais você tem que se curvar em humildade humana ao fato de que há algo passando por você que é maior que você


Gilbert continua a ler uma breve e surpreendente reflexão sobre amor e perda que ela postou originalmente no Instagram:


As pessoas me seguem perguntando como estou e não sei muito bem como responder a isso. Depende do dia. Depende do minuto. Neste momento estou bem. Ontem, não muito bem. Amanhã veremos.

No entanto, isso é o que aprendi com a dor.

A dor da perda é uma energia que não pode ser controlada ou prevista. Ela vem e vai ao seu próprio ritmo. A dor não obedece a seus planos ou seus desejos. A dor da perda vai fazer contigo o que ela deseja, quando desejar. Nesse sentido, a dor da perda tem muito em comum com o amor.

Então, a única maneira pela qual eu posso "manejar" a dor é a mesma em que eu posso "manejar" o amor: não "manejando" isso, mas curvando-se ao seu poder com completa humildade.

Quando a dor me visita, é como ser visitado por um tsunami. Eu recebo o aviso apenas o tempo suficiente para dizer "Meu Deus, isso está acontecendo AGORA", e então eu caio de joelhos e deixo isso me abalar. Como sobreviver a um tsunami de dor? Estar disposto a experimentá-lo, sem resistência.

A conversa com a dor é, portanto, de oração e resposta.

A dor me diz: "Você nunca amará alguém como amava Rayya". E eu respondo: "Estou disposta a tornar isso verdade". A dor diz: "Ela se foi e não vai voltar". Eu respondo: "Estou disposta a tornar isso verdade". A dor diz: "Você nunca mais ouvirá essa risada". Eu digo: "estou pronta". A dor diz: "Você nunca vai sentir o cheiro dessa pele novamente". Eu desço ao chão de joelhos, e através das minhas lágrimas, eu digo "EU DISPOSTA". Este é o trabalho de estar vivo: esteja disposto a se curvar a QUALQUER COISA que seja maior que você. E quase tudo é maior que você.

Eu não sei onde Rayya está agora. Não é para eu saber. Eu só sei que vou amá-la sempre. E estou disposta.


Na entrevista, Gilbert acrescenta:


É uma honra passar por este luto. É uma honra sentir tanto, ter amado tanto.

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