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Consciência, valores e autocompaixão

Atualizado: Jul 30

Autora: Erika Leonardo de Souza


"Da maneira que é”

William Stafford


Há um fio que você segue. Corre entre as coisas que mudam.

Mas isso não muda.

As pessoas se perguntam o que é que você persegue.

Você tem que explicar sobre o fio.

Mas é difícil para os outros verem.

Enquanto você segura você não pode se perder.

As tragédias acontecem, há feridos ou mortos;

E você sofre e envelhece.

Nada que você faça pode parar o fluxo do tempo.

Você nunca solta o fio.



A consciência

Essa semana eu soube de um “causo” que me fez refletir sobre a seguinte questão: como a consciência dos nossos potenciais E das nossas limitações nos faz viver uma vida baseada em nossos valores? Como nos ajuda a ter uma vida com sentido? E já adianto: se não tivermos consciência das nossas necessidades e do fio que perseguimos na vida, não conseguimos responder a questão chave (e mágica) da autocompaixão – “o que eu preciso agora?”


Eu soube que uma veterinária que eu admiro muito mudou de turno na clínica onde ela trabalha. Ela atendia Aida e eu tive a oportunidade de “observá-la”. Absurdamente competente, um “House” da medicina veterinária, porém ficava confusa e desorganizava as suas rotinas em meio a tantas demandas de uma UTI veterinária, incluindo tutores. Uma vez, ela me disse: tenho TDAH, Erika. A chefe dela, uma pessoa bastante compassiva, levou em conta a capacidade técnica da médica, mas também seus limites em trabalhar em um contexto de bastante demanda “externa” (ela é bastante focada quando está cuidando dos animais) e a colocou para trabalhar apenas no turno noturno. Assim, ela consegue focar a atenção no atendimento dos animais, com menos demanda de tutores e de todo o movimento que uma clínica veterinária tem durante o dia. Eu não perguntei a ela, mas estou certa de que um valor fundamental na vida dela é poder cuidar bem dos animais.


Um valor importante para mim é ser gentil com as pessoas (e fico aqui imaginando algumas pessoas lendo isso e pensando: mas ela é mega grossa, como pode?). Eu não sei se tenho TDAH (tampouco a médica veterinária – e na verdade isso nem importa), mas eu adquiri consciência do contexto interno e externo no qual não consigo ser gentil com as pessoas. Eu tenho que ser polida e gentil todo o tempo? Não. Mas, eu não gostaria de magoar as pessoas, especialmente pessoas que gostam de mim e me admiram. O que acontece é que, assim como a veterinária, eu perco o foco, a consciência, em meio a muitas demandas. Eu não consigo ser gentil quando estou atrasada para um compromisso, recebendo dezenas de mensagens no WhatsApp e discutindo um assunto importante com uma colega. Alguma coisa aqui vai dar ruim. E sempre dá.


Essa consciência é recente e foi a partir dela que consegui parar de me punir, de me criticar por isso e refleti sobre o que é necessário fazer, "o que eu preciso me oferecer para viver de acordo com o valor da gentileza com as pessoas, o que eu posso fazer para me apoiar nessa jornada?" E não estou dizendo que é certo ou errado se comportar de maneira x ou y. Estou dizendo sobre o que é importante para mim. Sobre que mensagem quero deixar para o mundo. Sobre o que quero oferecer. E sobre sofrimento, um enorme sofrimento. E surge a motivação compassiva de fazer algo para aliviar e prevenir esse sofrimento.


Valores e autocompaixão


Nossos valores fundamentais NÃO SÃO METAS a serem atingidas. São aqueles “ideais profundamente arraigados que nos guiam e dão significado às nossas vidas. Nossas necessidades e valores parecem refletir algo de fundamental na natureza humana. As necessidades estão mais comumente associadas à sobrevivência física e emocional, como a necessidade de saúde e segurança ou de amor e conexão, enquanto os valores tendem a ter um elemento de escolha, como a escolha de focar na justiça social ou em buscas criativas” (Neff e Germer, 2019)


Quando não estamos vivendo de acordo com nossos valores essenciais nós sofremos. E, quando sofremos, se somos sensíveis a esse sofrimento (e isso a habilidade de Mindfulness – a consciência – nos dá), surge uma motivação compassiva de aliviar a prevenir esse sofrimento. Então, ter compaixão conosco, nesse momento, é ter clareza dos nossos valores, descobrirmos se estamos vivendo de acordo com eles e tentar dar a nós mesmos o que precisamos. A consciência dos obstáculos, que certamente teremos, é fundamental (lembrem-se do exemplo da veterinária, no qual foi possível redirecionar o seu trabalho para que o seu valor essencial de cuidar dos animais fosse possível).


Ser feliz não é não sofrer. É ter consciência do porquê vivemos, para que vivemos e encontrar os recursos internos para viver de acordo com nossos valores fundamentais.

E lembre-se de que a felicidade genuína está mais relacionada ao que oferecemos ao mundo do que o que obtemos dele.


E deixo para vocês um exercício do Programa de Mindfulness e Autocompaixão Mindful Self-Compassion (MSC), que se encontra no livro Manual de Mindfulness e Autocompaixão, da Kristin Neff e Christopher Germer.


Descobrindo nossos valores centrais

- Imagine que você já é idoso. Você está sentado em um belo jardim enquanto contempla a sua vida. Olhando para trás, sente um profundo sentimento de satisfação, alegria e contentamento. Embora a vida nem sempre tenha sido fácil, você conseguiu realmente se manter fiel a si mesmo. Por quais valores centrais, que lhe deram significado na vida, você viveu? Por exemplo, passar um tempo em contato com a natureza, viajar e viver aventuras ou servir aos outros? Escreva seus valores centrais.


- Agora, escreva todas as maneiras pelas quais você sente que não está vivendo de acordo com seus valores centrais, ou em que aspectos a sua vida parece estar em desequilíbrio com seus valores. Por exemplo, talvez você esteja ocupado demais para passar algum tempo em contato com a natureza, muito embora o contato com a natureza seja o que mais gosta na vida.


- Se você tiver vários valores com os quais se sente alinhado, escolha um que seja especialmente importante para você.

- É claro que existem muitos obstáculos que nos impedem de viver de acordo com nossos valores centrais. Alguns deles podem ser obstáculos externos, como não ter dinheiro ou tempo suficientes. Por exemplo, talvez seu trabalho lhe tome tanto tempo que você não consegue ter contato com a natureza. Se houver algum obstáculo externo, escreva.


- Também pode haver alguns obstáculos internos que dificultam que você viva a sua vida de acordo com seus valores centrais. Por exemplo, você tem medo do fracasso, duvida das suas habilidades, ou a sua crítica interna está atrapalhando? Talvez você ache que não merece passar um dia despreocupado ao ar livre. Escreva todos os seus obstáculos internos.


- Agora, reflita se a autobondade e a autocompaixão podem ajudá-lo a viver de acordo com seus verdadeiros valores, por exemplo, ajudando-o a superar obstáculos internos, como a sua crítica interna. A autocompaixão pode ajudá-lo de alguma forma a se sentir suficientemente seguro e confiante para tomar novas atitudes, ou arriscar falhar, ou para de fazer coisas que são uma perda de tempo? Ou você pode expressar seus valores na vida de alguma forma que não havia pensado antes? Por exemplo, conseguir um emprego com um horário mais flexível para que você possa acampar com mais frequência?


- Por fim, existem obstáculos intransponíveis para viver de acordo com os seus valores. Você consegue dar a si compaixão por essa dificuldade? Ou seja, não abandonar seus valores apesar das condições? E, se o problema insuperável for que você é imperfeito, como todos os seres humanos são, você consegue se perdoar por isso também?


Reflexão

Como foi esse exercício para você? Encontrou algo inesperado?

Algumas pessoas têm dificuldade de identificar seus valores essenciais quando fazem esse exercício. É possível que estejamos vivendo nossas vidas tão intensamente que não fazemos uma pausa para considerar quais valores são profundamente significativos para nós. Nesse caso, a autocompaixão vem na forma de simplesmente ser feito a pergunta: "Com o que eu me importo?". Seus valores são verdadeiramente seus ou são os valores que outras pessoas Ihe disseram que você deveria ter?

Outras pessoas podem ter clareza dos valores essenciais delas mesmas, mas se decepcionam porque não estão vivendo de acordo com eles. Embora seja útil considerar se a autocompaixão pode nos ajudar a deixar de lado coisas que se atravessam no nosso caminho, é igualmente importante reconhecer que, mesmo que tentemos, algumas vezes simplesmente não conseguimos viver de acordo com nossos valores essenciais. Se esse for o seu caso, veja se você consegue aceitar que viver uma vida humana é complicado, ao mesmo tempo que mantém acesa a chama dos seus desejos mais profundos ardendo em seu coração. Você poderá descobrir que uma pequena expressão de um valor essencial pode fazer uma grande diferença na sua vida (pag 96-100)


Referência

Neff, K., Germer, C. Manual de Mindfulness e Autocompaixão. Porto Alegre: ArtMed, 2019.

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