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Cultivar um coração aberto em um mundo quebrado

* Texto original de Gonzalo Brito traduzido por Erika Leonardo de Souza. Você pode acessar o texto original clicando aqui. As fotos também foram retiradas do post original.


"Quando nossa realidade desmorona, naturalmente surge o medo, pois nosso cérebro está geneticamente e culturalmente condicionado a isso. No entanto, quando ficamos presos na psicologia e fisiologia do medo, perdemos de vista que o colapso de uma certeza também cria um espaço fértil para que algo novo surja."



Caminho de Guadalix de la Sierra. Papoulas florescem sem esperar que sejam aplaudidas


Na tradição budista existe a figura mítica do bodhisattva. Os bodhisattvas são arquétipos que incorporam vários potenciais da mente humana e, como figuras míticas e fontes simbólicas de inspiração, os bodhisattvas são caracterizados pelo cultivo da motivação mais altruísta concebível: "aliviar o sofrimento de todos os seres". Se pensamos que os seres são inumeráveis (e os sofrimentos de cada um não são poucos, começando simplesmente pela doença, velhice e morte pessoal e de todos os que amamos), vemos que o voto do bodhisattva é, por assim dizer, uma "Missão Impossível".


Como viver sabendo que o mundo não tem conserto e ainda assim sustentar em si mesmo um coração aberto e a melhor motivação para servir? No budismo zen, os quatro votos do bodhisattva são recitados: um deles diz que “os seres são inumeráveis; me comprometo a liberar todos eles". Naturalmente, este é um paradoxo, impossível, que sugere uma quarta alternativa à nossa reatividade habitual frente ao que é difícil. Nossa mentalidade habitual diante do sofrimento consiste em consertá-lo (embora muitas vezes não existe conserto), esgotar-nos (na tentativa de consertá-lo) ou desconectar-nos por evasão ou por nossos vícios em particular (cada um tem o seu).


O paradoxo e a prática no centro da mente / coração do bodhisattva consistem em manter o coração aberto em um mundo que não tem conserto. A prática psicológica e espiritual de trazer compaixão para o nosso mundo consiste em ter clareza sobre os fatos dolorosos nos níveis pessoal, relacional, social e global e praticar transformar o hábito de nos fechar, paralisar e polarizar. A prática consiste em permanecer aberto e disponível quando o hábito de toda a vida é contrair-se defensivamente. Frequentemente, diante das más notícias familiares, econômicas, políticas e globais, nosso sistema entra na fisiologia da ameaça e aparecem duas tendências defensivas: ou queremos deitar na cama e nos cobrir até a cabeça com um monte de cobertores; ou queremos pegar um bastão e sair golpeando aqueles que representam tudo o que está errado. Mas existe um "caminho intermediário" entre paralisia e agressão que consiste em cultivar gradualmente a capacidade de estar com o que se desfaz e ver como podemos contribuir e lidar com isso de uma maneira que pelo menos não acrescente sofrimento ao sistema e que talvez possa até ser uma contribuição.




O Cádiz, A Pedriza. Estabilidade e espaço são qualidades da mente do bodhisattva.



O ideal do bodhisattva tem pelo menos alguns milhares de anos, mas acho que é um ideal importante justo hoje, quando sentimos a tremenda volatilidade do mundo nos níveis ecológico, econômico, social e político. Não precisamos ir muito longe: Todos nós podemos reconhecer em nossa pequena vida como há uma fragilidade, um "tremor do chão" que está sob nossos pés. Por isso talvez necessitamos de mais bodhisattvas modernos e ferramentas para nos treinar na atitude altruísta de amar tudo o que pudermos e das maneiras mais amplas em um mundo incerto.


Sendo um pouco mais concretos, podemos nos perguntar ao que nos referimos quando dizemos "aliviar o sofrimento"? Uma distinção interessante oferecida pela psicologia budista é a dos três níveis de sofrimento.


Primeiro, existe um nível externo de sofrimento, que consiste em não ter as necessidades básicas atendidas, a doença, a exposição à violência de qualquer tipo, em não ter abrigo. Este é o nível mais concreto e evidente, um sofrimento fundamental que devemos atender como pessoas e também estruturalmente como sociedade. Enquanto as pessoas (e os animais) não se sentem basicamente seguros, seus sistemas nervosos estarão em ameaça, o que não apenas os afeta, mas a todos, uma vez que um sistema cronicamente ameaçado em sua sobrevivência pode naturalmente responder defensivamente e agressivamente.


Segundo, o sofrimento interno, que é um sofrimento menos óbvio que o anterior, mas não necessariamente menos doloroso. Consiste no sentimento básico de não ser amado, de se sentir isolado e de que ninguém se importa conosco. Isso geralmente é acompanhado pela sensação de que há algo fundamentalmente ruim ou danificado em si mesmo. O sofrimento interno gera emoções difíceis e de longo prazo, prejudiciais ao corpo-mente, como medo, raiva, vergonha, culpa. O isolamento social tornou-se uma epidemia nos países desenvolvidos (EUA em primeiro lugar) e tem um efeito semelhante ao tabagismo em termos de diminuição da expectativa de vida.


Terceiro, o nível raíz, que consiste na crença e no sentimento de que estamos essencialmente separados um do outro, de que podemos viver e nos sustentar por nós mesmos porque acreditamos em um eu unitário, contínuo e independente. Do ponto de vista da psicologia budista, esse apego a um eu separado, ao qual eu tenho que proteger a todo custo, é uma fonte de grande sofrimento pessoal e interpessoal, pois, a partir dessa crença, não nos damos conta de que o que fazemos ao outro, estamos fazendo a nós mesmos. Simplesmente não é possível amar sinceramente sem nos beneficiarmos dessa abertura do coração, nem é possível odiar sem sofrer a contração física e mental que o ódio traz. Não apenas a psicologia budista, mas também a psicologia e a neurociência não conseguiram encontrar evidências da existência de um eu singular, permanente e autônomo.


"Simplesmente não é possível amar sinceramente sem nos beneficiarmos dessa abertura do coração, nem é possível odiar sem sofrer a contração física e mental que o ódio traz. Não apenas a psicologia budista, mas também a psicologia e a neurociência não conseguiram encontrar evidências da existência de um eu singular, permanente e autônomo."



Portanto, quando falamos sobre a possibilidade de treinar nosso sistema nervoso para incorporar o que poderia ser um "bodhisattva moderno", podemos pensar em pequenas maneiras de agir nesses três níveis: Como posso ajudar a mim e aos outros a aliviar o sofrimento externo, interno e raíz?


No nível externo, o físico, como posso ajudar as pessoas (inclusive eu) a se sentirem basicamente seguras, respeitadas, nutridas? Como posso transformar gradualmente minha maneira de viver para que minha satisfação não dependa da exploração de outros seres que, assim como eu, querem ser felizes e livres de sofrimento? Como posso organizar meus relacionamentos com o planeta e com os outros para que meus gestos, dos mais grosseiros aos mais sutis, reflitam um respeito pela vida e pela dignidade dos seres vivos?


No nível interno, o emocional, como posso ajudar outras pessoas a sentirem que são importantes? Como posso transmitir, especialmente por meio de pequenos gestos cotidianos, a outra pessoa ou outro animal, que sua vida é importante, que não é um simples objeto à minha disposição, que não há nada fundamentalmente quebrado ou mal nela? Como posso humanizar meu olhar um pouco todos os dias, mesmo quando me olho com olhos de falta e decepção? Nesse ponto, não devemos subestimar o valor do pequeno e do sutil: nossa expressão facial transmite volumes de significado em um instante; nossas palavras, como diz uma música de Silvio, podem dar vida ou matar o amor. Mesmo antes de avaliar o impacto de tudo isso sobre os outros, considere simplesmente como seria seu estado mental se, em vez de ser sequestrado pelos dramas da satisfação ilusória autocentrada, você se voltasse à aspiração de ajudar os outros a se sentirem amados e cuidados.


"Como seria seu estado mental se, em vez de ser sequestrado pelos dramas da satisfação ilusória autocentrada, você se voltasse à aspiração de ajudar os outros a se sentirem amados e cuidados?"


No nível raiz, talvez o mais espiritual, como posso ajudar a mim e aos outros a suavizar a dureza de um ego contraído? Como podemos estar mais conscientes de que tudo o que vemos "é sustentado por tudo mais", já que nada pode existir por si só e tudo surge em relação? Como estar aberto para perceber que o eu próprio e o dos outros não são unitários, mas múltiplo, diverso, mutável, inatingível? Como ir soltando gradualmente a tendência a enquadrar e enquadrar-nos em roteiros reificados de identidades limitantes? Essa abertura na percepção do mundo dos fenômenos é chamada de sabedoria experiencial do vazio, shunyata. Shunyata não significa falta de algo, mas é a noção de que tudo emerge de modo relacional, momento a momento, da infinita criatividade do momento presente. Todos nós aparecemos, momento a momento, a partir de causas e condições contingentes. Como diz uma querida mentora, Elizabeth Matiis Namgyel, "somos cidadãos da grande natureza da contingência infinita.


Minha consciência de que somos contingentes e de que nossa existência depende de tudo mais para existir tem dois efeitos principais para mim. Primeiro, posso me dar conta que meu bem-estar depende do bem-estar dos outros. Nesse sentido, não há distância entre egoísmo e altruísmo quando faço um nobre esforço pelo outro: sou o primeiro beneficiado quando me comporto de maneira alinhada com o amor que existe em meu centro.


Segundo, se tudo é apoiado por tudo mais, meus pensamentos, palavras e ações têm um impacto, mesmo quando eu não percebo. Cada gesto de sua mente, sua fala e seu corpo produz "efeitos de onda" que realmente não sabemos onde podem chegar. E, frequentemente, pequenos gestos têm grandes impactos. Isso é verdade para gestos que geram sofrimento e para gestos que geram alívio do sofrimento e felicidade. Essa consciência traz uma grande responsabilidade, mas também traz a alegria de se sentir parte da grande família de seres na qual você é bem-vindo. Na realidade, você sempre foi bem-vindo, faltava apenas se dar conta disso para se tornar uma parte ativa e responsável deste jogo vital. A palavra "responsável" pode parecer séria e seca, mas basicamente me refiro à possibilidade de assumir a responsabilidade e a liberdade de manifestar amor em sua própria versão única e inimitável. Essa responsabilidade não é transferível e está conectada à intensa alegria de estar alinhado com a vida.


"Cada gesto de sua mente, sua fala e seu corpo produz "efeitos de onda" que realmente não sabemos onde podem chegar. E, frequentemente, pequenos gestos têm grandes impactos. Isso é verdade para gestos que geram sofrimento e para gestos que geram alívio do sofrimento e felicidade. Essa consciência traz uma grande responsabilidade, mas também traz a alegria de se sentir parte da grande família de seres na qual você é bem-vindo."


Eu creio que nisso consiste usar a vida para treinar-se como um bodhisattva moderno. Tudo isso pode parecer um pouco grandiloqüente e fora da "realidade". No entanto, veja como é realmente possível fazer pequenas mudanças na vida. As mudanças são geralmente graduais e quase invisíveis no curto prazo, mas de repente você vê uma pessoa que não via há alguns anos e as mudanças são muito claras. Talvez pelo menos a pessoa não se queixe mais das mesmas coisas ... isso já é algo se levarmos em conta que há pessoas que se queixam das mesmas coisas por décadas.



Pema Chödrön, mestra budista, com 83 anos.


Finalmente, compartilho com vocês algumas sugestões que tive a sorte de receber de Pema Chödron em retiro na semana passada, para cultivar gradualmente a mentalidade bodhisattva, uma mentalidade que pode permanecer aberta e construtiva diante de um mundo em chamas:

  • Concentre-se em fazer pequenas mudanças: não mais que uma ou duas por mês. Não é útil sobrecarregar a função executiva do cérebro, tentando implementar uma variedade de mudanças significativas em pouco tempo. Isso leva à frustração e perda de confiança.

  • Medite diariamente: é importante ter espaços de auto-reflexão todos os dias para perceber o que você não está percebendo quando seus padrões usuais de sofrimento estão ativos. Quando você perceber que está caindo em um hábito que causa sofrimento em você ou nos outros, você pode observá-lo e até se arrepender, você pode dizer: “essa ação não reflete realmente a pessoa que eu quero ser nesta vida”, mas, ao mesmo tempo, mantenha a consciência de que não há nada fundamentalmente mal com você. De fato, confie que há algo fundamentalmente bom em você. Se não houvesse nada de bom, você não teria essa motivação para ajudar-se e ajudar os outros. Ladrar criticamente como um cachorro furioso, porque fizemos algo errado, apenas nos afunda na vergonha e na autocrítica que nos atrasam e nos desmoronam.

  • É importante perceber honestamente e amavelmente onde você está agora. Desta forma, podemos manter a aspiração de abrir o coração, mas ser paciente com o lugar até onde seu sistema nervoso pode sustentar a situação atual. Faz parte do caminho do bodhisattva abrir a porta para todos os seres como nossos convidados, mas é importante abrir essa porta gradualmente para não ultrapassar os limites atuais do nosso sistema nervoso.

Dessa maneira, aos poucos, estamos aumentando nossa capacidade de viver sem ter nada a que nos agarrar ... permanecendo abertos a tudo o que a vida traz, mas sendo muito gentis no aumento gradual dessa confiança no vazio generativo fundamental dessa vida.





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